Gregório de Matos (1636-1696)

Gregório de Matos é uma figura fundamental da literatura brasileira, especialmente do período barroco colonial. Conhecido como "Boca do Inferno" por sua poesia satírica e agressiva, que criticava a sociedade, a Igreja Católica, e a política da Bahia no século XVII, A sua relevância se encontra na representação genuína do cenário social do Brasil e na exploração do português como idioma literário, impactando gerações futuras, incluindo o futuro Modernismo.
Ele nasceu em Salvador, Bahia, em 1636, estudou Direito em Coimbra e exerceu cargos públicos, mas viveu de forma rebelde, enfrentando perseguições da Inquisição e foi degredado para Angola em 1694. Retornou ao Brasil, mudou-se para Recife, onde morreu em 1696, aos 59 anos, em decorrência de uma febre adquirida durante o exílio.
Suas obras são diversificadas, com destaque para a poesia satírica, lírica, erótica e religiosa. Entre suas obras mais famosas estão "Homens de Bem", "O Burgo", e diversas coletâneas de poemas que criticam hipocrisia social, religiões e costumes, além de tratar temas amorosos e religiosos, a escrita de Gregório de Matos é caracterizada por uma crítica social aguçada e pelo uso inventivo do português, com características barrocas.
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Poema religioso
Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
É verdade, Senhor, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
Maldade, que encaminha a vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!
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Poema satírico
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.
Redatora: Aléxia Félix
Orientadora: Profa. Maria Aparecida
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